top of page

Nem toda vontade de comer é fome

Você já terminou uma refeição e, pouco tempo depois, sentiu vontade de comer alguma coisa?

Ou percebeu que, em alguns dias, a comida parece ocupar muito mais espaço nos seus pensamentos?

Talvez isso aconteça quando o dia foi mais cansativo.

Ou quando está frio.

Ou quando você está sozinho.

Talvez quando precisa de uma pausa.

Ou simplesmente quando passa por uma semana mais intensa.

Muitas pessoas chegam ao consultório preocupadas com essas situações.

Elas costumam dizer:

"Nutri, eu acho que tenho muita fome."

Mas, antes de responder, quase sempre faço outra pergunta:

Como é essa fome?

Porque fome e vontade de comer podem parecer a mesma coisa, mas nem sempre são.

E compreender essa diferença costuma ser muito mais transformador do que decorar uma nova lista de alimentos permitidos.


Talvez o seu corpo esteja tentando conversar com você

Durante muito tempo aprendemos que a alimentação deveria funcionar assim:

  • comer porque sentimos fome;

  • parar quando estamos satisfeitos.


Parece simples.

Mas a vida raramente funciona dessa maneira.

Nós também comemos para celebrar.

Para descansar.

Para compartilhar.

Para lembrar de alguém.

Para enfrentar dias difíceis.

Para aquecer o corpo em uma tarde fria.

Para tornar um momento mais agradável.

Isso não significa que exista algo errado.

Significa apenas que comer é um comportamento humano.

E, como todo comportamento, ele acontece dentro de um contexto.


A fome é apenas uma das razões pelas quais comemos

Imagine uma panela no fogo em um dia frio.

O cheiro começa a tomar conta da casa.

Mesmo sem sentir fome, talvez você tenha vontade de servir um prato.

Agora pense em um café passado na hora.

Ou naquele bolo que lembra a casa da sua avó.

Ou na pipoca durante um filme.

Essas situações despertam algo além da necessidade fisiológica.

Elas despertam memórias.

Afeto.

Conforto.

Presença.

Nosso cérebro associa experiências alimentares a emoções e lembranças ao longo da vida. Por isso, algumas comidas nos fazem sentir acolhidos antes mesmo da primeira garfada.

Perceber isso não significa desconfiar de cada vontade de comer.

Significa reconhecer que a alimentação é mais rica e mais complexa do que costumamos imaginar.


Então existe fome "verdadeira" e fome "falsa"?

Essa é uma pergunta que aparece com frequência.

E talvez a resposta seja diferente da que você espera.

Eu prefiro não chamar nenhuma delas de "falsa".

Quando sentimos vontade de comer para buscar conforto, acolhimento ou pausa, essa experiência é real.

O que muda é a necessidade que está por trás dela.

Às vezes, seu corpo precisa de energia.

Às vezes, precisa de descanso.

Às vezes, precisa de companhia.

Às vezes, precisa simplesmente de alguns minutos para respirar.

Às vezes, a vontade de comer também pode ser uma forma de o corpo pedir cuidado.


O problema não é sentir vontade de comer

Talvez o maior equívoco seja acreditar que o objetivo é eliminar essas vontades.

Não é.

Comer também faz parte da cultura, do prazer e das relações humanas.

O problema costuma aparecer quando a comida se torna a única resposta possível para todas as necessidades.

Quando ela precisa resolver o estresse.

A ansiedade.

O cansaço.

A solidão.

A frustração.

Nessas situações, vale a pena ampliar as possibilidades de cuidado, e não retirar a comida da equação.


Antes de abrir a geladeira, experimente abrir espaço para uma pergunta

Não é um teste e não existe resposta certa.

A ideia é apenas abrir espaço para alguns segundos de curiosidade.

Você pode experimentar perguntar:

O que eu preciso neste momento?

Talvez a resposta seja:

"Estou com fome."

Então comer será exatamente o cuidado que seu corpo está pedindo.

Mas talvez apareçam outras respostas.

"Estou cansado."

"Preciso levantar da cadeira."

"Quero conversar com alguém."

"Estou há horas trabalhando sem fazer uma pausa."

"Estou entediado."

"Só queria um momento de silêncio."

Perceba que nenhuma dessas respostas exclui a possibilidade de comer.

Elas apenas ampliam o repertório de cuidado.


O ambiente também influencia as suas escolhas

Às vezes, imaginamos que todas as decisões alimentares dependem da "força de vontade".

Mas basta lembrar de alguns exemplos do cotidiano.

Nos dias frios, é comum procurar preparações mais quentes e reconfortantes.

Quando trabalhamos muitas horas seguidas, podemos comer mais rápido.

Ao assistir televisão, talvez nem percebamos quanto comemos.

Em períodos de estresse, a rotina muda.

E quando a rotina muda, nossos hábitos também precisam de adaptações.

Isso não significa que você perdeu a disciplina, mas sim que você continua sendo humano.

Compreender o contexto costuma ser muito mais útil do que culpar a si mesmo.


Pequenas pausas podem mudar mais do que grandes regras

Na nutrição, muitas vezes buscamos soluções grandiosas, um plano perfeito, uma dieta definitiva ou uma estratégia que funcione para sempre.

Mas a mudança de comportamento costuma acontecer de outra forma.

Ela nasce de pequenas repetições.

De pequenas observações.

De pequenas escolhas.

Talvez o cuidado de hoje seja apenas beber um copo de água que você vinha adiando.

Talvez seja sentar para fazer uma refeição sem o celular.

Talvez seja perceber que você estava procurando descanso, e não necessariamente comida.

Essas pequenas pausas nos ajudam a escutar melhor os sinais do corpo.

E, aos poucos, tomar decisões mais conscientes.


Entre uma consulta e outra...

Quero deixar um convite simples.

Nos próximos dias, escolha apenas um momento em que surgir vontade de comer.

Sem mudar nada.

Sem tentar controlar.

Sem se julgar.

Apenas observe.


Experimente observar:

  • Como meu corpo está agora?

  • O que aconteceu antes dessa vontade aparecer?

  • Existe alguma emoção presente?

  • Além da comida, existe outro cuidado que também faria sentido neste momento?


Talvez você descubra que algumas vontades realmente eram fome.

Talvez descubra outras necessidades que estavam passando despercebidas.


Em qualquer um dos casos, você estará conhecendo melhor o próprio corpo.

E esse costuma ser um excelente ponto de partida.


Então...

Se existe algo que gostaria que você levasse da leitura deste post, é isto: você não precisa desconfiar do seu corpo. Talvez seja o momento de começar a escutá-lo com mais curiosidade.

Quanto mais compreendemos os motivos por trás das nossas escolhas, menos espaço sobra para a culpa e mais espaço aparece para o cuidado.

A alimentação deixa de ser uma sequência de regras e passa a fazer parte de uma relação construída com curiosidade, respeito e gentileza.

Se você sente que gostaria de aprofundar esse processo e construir uma relação mais leve e consciente com a comida, o acompanhamento nutricional pode ser um espaço seguro para fazer isso no seu ritmo, sem julgamentos e com estratégias adaptadas à sua realidade.


Um convite para esta semana

Antes de fechar esta página, faça apenas uma pausa.

E, antes de fechar esta página, gostaria de deixar uma última pergunta:

Quando a vontade de comer aparecer hoje, o que o seu corpo estará
tentando comunicar?

Você não precisa fazer isso sozinho...

Se você sente que gostaria de compreender melhor sua relação com a alimentação e construir hábitos possíveis para a sua realidade, será um prazer caminhar ao seu lado.


Cladinara Roberts Sarturi

Nutricionista - CRN2/22284/D

Comentários


bottom of page